UNEB – DEDCI
PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL E DO
TRABALHO
DOCENTE: ANTONIO CARLOS SALES ICÓ
DISCENTE: GABRIEL REVLON SEABRA
Trabalho de síntese de Psicologia
Organizacional e do trabalho.
A relação
do homem com o trabalho é antiga e há quem diga que humanizadora. O homem,
então, é homem que se constitui e é constituído exercendo trabalho como também
vivenciando às relações do trabalho.
A relação
como trabalho é antes de ser de consumo: de produção e de relação. O homem se
relaciona com a natureza por meio do trabalho. Gasta energia em prol de
modificar o meio, por manter sua subsistência, por investis em sua satisfação
pessoal ou de outrem, por produzir: arte, ciência, filosofia, por devanear ou
até mesmo por divertir-se. O trabalho é conceituado em física, ou seja, em
reflexão com a natureza, onde o gasto de energia potencial pode gerar trabalho,
desde o deslocar de um objeto em uma pequena distância até a conversão de
energia petroquímica em aceleração de um motor de automóvel ou de uma aeronave,
por exemplo.
Quando
exerce o trabalho, desde a infância, o homem se relaciona com o que lhe é
visível e que não o é. E dessa maneira, trabalhando a natureza exterior e
natureza de si, constitui-se , pois assim aprende como relacionar com os
diversos objetos, sejam materiais ou intelectuais. A construção de uma casa,
por exemplo, demanda uma série de reflexões e ações que necessariamente
perpassam o trabalho. A reflexão, o limpar do terreno, o projeto arquitetônico,
a formação das bases da casa, o colocar dos tijolos etc. Assim como a morada e
manutenção da casa demandam trabalho.
Para a
psicanálise, teoria freudiana, o homem desloca a sua libido, que a principio
tem relação intima com o prazer sexual, energia potencial à realização de
processos que podem ser chamados de sublimação. A sublimação é uma via de
acesso da libido para realização não necessariamente sexual, mas sim de
produção, seja cientifica, seja artística, seja intelectual de outra ordem,
etc. Por meio da sublimação podemos construir uma civilização, para Freud,
podemos ser culturais. Contudo muito ainda é questionável nessa grande teoria,
que é prática também, no que se chama clínica analítica. Questionável por ser
universal, por afirmar que todo homem civilizado passa por processos desde a
infância até a fase adulta por processos similares. A antropologia, por
exemplo, questiona a validade cultural da teoria, contudo sua prática ainda a
deixa em evidencia, principalmente pelos resultados gerados, pelas práticas e
pelos caminhos de apropriação do saber humano utilizado pela psicanálise.
A arte é
também é uma maneira de se relacionar com a natureza, com o corpo, com os
sentimentos, com o outro, e essa relação se constitui também pela dimensão do
trabalho. Ter uma idéia, projetar um instrumento musical, fazer escalas
musicais, fazer música, tocar alguém com a intenção de uma música, tudo isso é
muito humano e também perpassa o agir, a ação que é do trabalho.
O mito de
Sísifo, da mitologia Grega, Descrito por Albert Camus, fala dentre outras
coisas do trabalho árduo e repetitivo de um homem que foi condenado pelos
deuses. Sísifo empurrava uma pedra para cima em uma montanha por toda sua vida
para quando chegar ao final ela descer novamente. É uma sentença de vida
direcionada ao trabalho sem sentido real em sua vida, mas sim da punição de
deuses que tinham poder sobre sua vida. O trabalho inútil e repetitivo era
feito por manter uma vontade alheia, um trabalho alienado a outrem.
Para Hegel,
na dialética, o homem é senhor e escravo. O senhor tem a posse do desejo do
outro e o escravo é inebriado por esse desejo, é enfeitiçado a exercer um
trabalho de submissão em prol de um desejo que nunca será realizado e que gera
escravidão. Nessa dialética tanto o senhor constitui o escravo quando o
contrário. Haveria senhor se um escravo? Creio que não, logo, essa relação é
necessária e fundante de ambas as partes na relação. Uma relação é a via de acesso mutuo, mesmo
que para gerar prazer, desprazer, amor, dor, etc. Então como se justificaria a
manutenção de duas condições tão Extremas? O desejo de si, que na verdade é
desejo de outrem. A alteridade gera a identidade de si, até porque pela
disposição de um diferencial pode-se constituir-se semelhante em humanidade. Ou
seria em sociedade, já que a sociedade é também um lugar de realização da
alteridade, ou seja, do relacionar-se com outro. Um dos grandes legados da
filosofia Hegeliana foi a de nos mostrar que o motor de uma relação tão extrema
entre o senhor e o escravo é o desejo. O desejo que não é realizável, é apenas
desejo. Logo muitas das condições de submissão podem ser justificadas no
trabalho por um determinante que muitas vezes é além de ilusório, uma demanda
deslocada de uma necessidade básica do humano em seu processo de humanização, o
desejo do outro e a consciência de si, quem estão intimamente ligados e que tem
um potencial de ser não apenas humanizar, mas de manutenção de um sistema
escravização entre humanos, de exploração do outro pelo trabalho, de alienação
do outro em prol de algo alheio e, portanto, do esforço repetitivo e perpétuo,
sem chegar a lugar nenhum. O desejo não é realizável, é apenas desejo.
A produção
de um bem material ou intelectual demanda um caminho de produção e uma
finalização do produto. Em ciências não foi diferente. Por meio do pensamento
filosófico o homem cria uma hermenêutica e assim desenvolve um caminho chamado
científico. Descartes nos deixou o legado para a ciência moderna, se não
redundância dizer moderna como adjetivo de ciência, não por semelhança das
palavras, mas por ser uma condição necessária. A ciência é a modernidade são
coincidentes. Descartes nos ensinou a fazer ciência por meio do pensamento
filosófico, ou seja, desenvolveu o que chamamos caminho de investigação e
produção de conhecimento científico. O método científico é justamente esse
caminho que fazemos, um caminho filosófico ou até mesmo epistemológico de
interpretação e aplicação. Para Descartes, a matemática é a prova real de
fidedignidade científica, pois como é uma filosofia que se pode ser comprovada
por meio de abstrações, métodos, formulações e resultados precisos ou quase
precisos, pode comprovar a validade do que antes era apenas suposição e crenças
sem comprovação exata, inexata ou quase exata.
A modernidade
é um dos legados de Descartes para a humanidade. Na modernidade, com o método
cientifico se produziu e ainda se produz muitas interpretações práticas da
filosofia. A modernidade não é se expressa apenas da produção do saber
científico, mas em diversas esferas de relação do homem com a natureza e em sua
inter-relações. O sistema econômico e social, por exemplo, de transição do
feudalismo para o capitalismo até afirmação do sistema capitalista de produção
influenciou e ainda o faz na dimensão do trabalho. Se um sistema de
entendimento do mundo e produção mudam, isso vai certamente mudar o imaginário
humano e criar novas maneiras de viver, na verdade reconfigurações do que já é
descrito na filosofia e que é
atualizado a cada momento.
A transição do
feudalismo para o capitalismo forjou o homem moderno em sua relações modernas.
Com a ascensão das ciências interpretativas da matemática, tanto nas ciências
chamadas hoje de naturais, humanas, e até mesmo da arte, e da comprovação
metodológica desenvolvemos e produzimos conhecimento e deixamos o legado de
continuidade dessa vontade de conhecimento e interpretação da natureza às
gerações futuras.
A ascensão do
capitalismo fez dos burgos e dos burguês os proprietários do conhecimento
cientifico e filosófico, como também do novo sistema de produção, capitalista,
que tem o consumo como uma mas molas de sustentação. Consumo pode ser visto
assim como o desejo, como algo até mesmo natural no processo de relação do
homem com a naturaza. Mas essa dimensão, assim como a do desejo foram
transladadas ao lugar do ilusório. No capitalismo consumimos mais do que
precisamos, na verdade não trabalhamos, ou fazemos coisas por subsistência ou
por prazer simplesmente, ou seja, o consumo é no sistema capitalista uma medida
da necessidade projetada em um sistema, digamos, sisífico, fazendo referencia
ao mito de Sísifo, onde o fazemos mecanicamente, sem propósito, as vezes, e por
manutenção de algo que é invisível, e
que nos é prometido, uma doce ilusão. A ilusão que é também do desejo. Consumir
é uma necessidade no sistema capitalista, mesmo que isso seja uma força
contraditória ao esforço pelo prazer ou o esforço por satisfação pessoal. Na
verdade é sim um trabalho alienado a outrem.
O excesso é
um dos resultados do processo de produção no capitalismo. E, então, o que fazer
com esse excesso? O excesso é consumido
pelas pessoas à medida que a atualização e a defasagem dos produtos faz parte
de uma dinâmica ilusória, mas com cara de real e necessária. O capitalismo gera necessidades do desejo e
defasa os objetos de consumo para que a produção em excesso seja lucrativa.
Consumimos bens materiais , hoje, também intelectuais. Bens de consumo são bens
materiais ou potenciais de consumo. Bens materiais podem ser tanto objetos como
um computador, por exemplo, ou uma formação técnica para trabalho em uma
empresa. Bens potenciais são os serviços, força de trabalho, potencial de
trabalho, ou seja, o potencial capital que existe em uma possibilidade de se
prestar ou receber um serviço.
As
organização, instituições que se mantém
de maneira organizada e se gere e é
gerida na medida em que se comunica com o ambiente social e, portanto, humano, se fundamenta no modelo
de produção capitalista, logo, pressupõe-se que os modelos de produção e
consumo assumem e tem resultados no processo de produção de excessos, alienação
do individuo, considerando indivíduo um conceito de homem que produz e é
produzido no sistema capitalista, e o lucro como finalidade.
Considerando-se os modelos de produção, Taylorismo, Fordismo e hoje
Toyotismo, em algumas organizações, Nos especializamos cada vez mais no
trabalho. O Artesão antes fazia todo o processo de construção de um objeto de
consumo. Um sapato, por exemplo, era todo produzido pelo artesão. Com a divisão
do trabalho o que era produzido pelo artesão agora é especializado, produzido
por partes. Isso é benéfico ao capitalismo, pois quem é especialista em solas
de sapatos não faz um sapato inteiro, mas pode produzir muitas solas em um
determinado período de tempo. Com isso se produz mais, porém quem produz quase
sempre não domina todo o processo, especializa-se e produz mais. Então com as
aplicações da física nas múltiplas interpretações matemáticas do trabalho, o
homem começa a produzir em
máquinas. Joule, cria a maquina a vapor. O homem aprende a
transformar energia térmica em trabalho, ou seja, transformação de modalidades
diferentes de energia. Esse foi o primeiro de muitos passos largos. Ford
inventou o motor a base de combustível fóssil. Eis a ascensão do consumo de
petróleo nas fábricas e novas formas de se produzir por meio do trabalho. O uso
de computadores, robores e internet já nos leva para outro rumo de produção e
relação com o trabalho. Mas essencialmente fazermos ainda o ciclo excessivo do
capitalismo.
O
trabalhador vai todos os dias para as organizações produzir bens de consumo,
mas, além disso, fazem também das suas relações, relações de consumo. Quase
tudo o que ocorre nos grandes centros urbanos, onde se concentram as organizações
é da ordem do excesso e de produção imediata, ou potencialmente imediata. “Time
is money”. Uma frase que resume bem a drástica investida de todos os dias,
cotidiana, que fazemos por ganhar o que nos faz potenciais consumidores. É de
fetiche social no capitalismo ter possibilidade de viver o ideal, o que é da
ordem do desejo, mesmo que seja uma falsa ilusão. Todos somos potencialmente
realizadores de trabalho e portanto passiveis de auto realização ou de
realização com outrem. Mas o que nos é potencial pelo trabalho é material no
capitalismo por meio de dinheiro, moeda de troca, o dinheiro é uma ilusão
material de infinitas possibilidades no capitalismo. À medida que o homem que
não se auto conhece e nem tem possibilidade de fazê-lo, já que o seu tempo é basicamente para o trabalho
excessivo e muitas vezes sem auto satisfação ou satisfação social, pode sofrer
e provavelmente ocorrerá isso no seu dia-a-dia. Com a ilusão de satisfação
potencial dada pelo dinheiro o homem corre e corre, vendendo seus dias de vida,
dando seu sangue e sofrendo para tentar ser feliz.
As
organizações inseridas no modelo de produção capitalista tentam conciliar o
modelo capitalista de produção, ou seja, tentam lucrar e por terem
responsabilidades constitucionais, ou seja, legais, dar direitos a saúde e bem
estar aos trabalhadores organizados e sobre a cobertura de sindicatos, ou seja,
cobertos pelas leis. Por terem essa responsabilidade legal as organizações
contratam uma seria de profissionais que seriam mediadores ou comunicadores
entre os interesses da organização e os interesses dos trabalhadores.
O psicólogo
organizacional e do trabalho é um desses profissionais, na verdade, o psicólogo
tenta aliar por meio de técnicas a comunicação do e trabalhador e da organização,
mas também faz um trabalho processual de possibilidade de implicação do
trabalhador em seus próprios processos pessoais, sejam eles familiares, sociais
de outra ordem, organizacionais etc. É verdade que essas instancias se tocam de
alguma maneira, já que as relações que acontecem são relações também de afeto,
ou seja, tem base emocional. Como conciliar então as demandas das organizações
as demandas das pessoas, dos trabalhadores? Essa tarefa é bem complicada, já
que o modelo capitalista foi projetado durante anos para favorecer aos grande
capitalistas, aos grande burgueses, logo a parte mais prejudicada é a do
trabalhador, o explorado demasiadamente e que geralmente sofre com esse modelo.
É aí que entra o conciliador. O psicólogo organizacional e do trabalho tenta
aliar os interesses da organização, que o paga por isso, portanto, lhe dá uma
gama de imperativos com finalidade de gerir um canal de comunicação entre as
partes , mantendo o lucro da organização a medida que faz com que os
trabalhadores não sucumbam por excesso de trabalho. É claro que com tanta
exploração no trabalho excessivo, isso se torna da ordem do impossível, o homem
acaba por sucumbi. O sistema capitalista então é um ativador de patologias no
trabalho.
As
psicopatologias não são só da ordem do trabalho, que é uma dimensão humana, na
verdade são da ordem do afeto, ou seja, os afetos são as vias de comunicação
inconsciente das relações humanas. A criança, segundo Freud, segue um “romance
familiar” em seu desenvolvimento humano e psicosocial. Logo as relações humanos
dos adultos é nada mais que fruto do que se aprendeu na infância e das
associações e relação feitas no caminho de amadurecimento individual no
coletivo. Com base no seu sofrimento moral e existencial, o homem pode produzir,
pode sublimar, eis a chave do que se é transmutado da ordem do afeto para a
ordem da produção de capital. O sofrimento então é um sofrimento humano, que é
interpretado como sofrimento do trabalho. Eis uma bela metonímia. Portanto o
que faz o psicólogo organizacional e do trabalho além de dá uma pílula
anestésica a Sísifo, condenado a morte? O homem no sistema capitalista é uma
peça na industria do capital, uma peça especifica e com período de validade.
Os
sofrimentos humanos na instancia do trabalho é gerador de patologias, chamamos
a isso psicopatologias do trabalho. Psicopatologia, pois as patologias são
geradas por afetos, por algo que é da ordem da psique. Mas como acontece essa
somatização do sofrimento? A somatização ocorre por meio da interpretação ou
entendimento de que é direcionado pelo afeto inconsciente ao corpo. O corpo é o
lugar de morada do espírito, da alma, ou seja, é o lugar da sensação, é no
corpo que sentimos. Portanto, se algo não vai bem na ordem dos afetos, logo o
corpo sinaliza, sintomatiza. O sintoma então é a expressão de um desarranjo
afetivo expresso no corpo.
Nas relações
acontece também dessa maneira, pois o corpo humano é especializado para a
comunicação, não necessariamente verbal. Os gestos, posturas, caras e
comportamentos corporais são formas de comunicação com outrem nas múltiplas
relações. Em uma organização não seria diferente. As pessoas interagem entre si
e o fazem por manter ou não a
comunicação e por terem ou não objetivos, sejam comuns ou não. Nessas trocas
relacionais, nesses encontros relacionais, os trabalhadores organizam-se e
desempenham papeis sociais nas organizações.
Então, as
patologias no trabalho, são conseqüências do modo de vida capitalista. Porque
então combater conseqüências ao combater as causas das patologias
possibilitadas pelos ambientes de produção capitalista? Porque o sistema
capitalista se auto gerencia e papeis são designados para que a manutenção das
práticas capitalistas sejam reais, de fato. Combater as causas seria nadar
contra a corrente nesse grande lado com forte correnteza.
Na
manutenção do que é legal, ou seja, do que é descrito por lei e favorável ao
modelo de produção vigente, os psicólogos desenvolvem práticas embasadas em
teorias psicológicas. Teorias com caminhos epistemológicos diferenciados, mas
com finalidades de tentar fazer com que haja implicação do humano em seus
processos pessoais de sofrimento. Algumas teorias fazem além disso afirmar o
modo de produção e dão paliativos para que tudo se mantenha da mesma maneira,
ou seja, a produção do lucro para as grande empresas e a minimização do
sofrimento do trabalhador.
O psicólogo
organizacional e do trabalho é um gestor, um líder, portanto, exerce a
liderança e ocupa um lugar privilegiado de fala e escuta no ambiente de
trabalho. Com um poder investido tanto pela empresa quando pelo saber poder que
é de produção intelectual, os psicólogos utilizam-se se artifícios relacionais
para a realização de tratamentos, consultas, analise, dentre outras formas de
falar e ouvir, como também de ser ouvido e falado, em seu trabalho, que é
organizado também. Logo o psicólogo é um inspetor inspecionado também, se não
por outras lideranças, por um sistema legal que também é fiscal. No lugar de
gestor o psicólogo pode utilizar de mecanismos como: transferências, rapport,
empatia, dentre outros termos, para efetuar a comunicação com o trabalhador
organizado. Ao perceber que há desorganização ou desestabilização
organizacional de relações ele atua com a finalidade de tentar resolver, de
maneira muitas vezes parcial, os conflitos gerados nas dinâmicas das relações
organizacionais. Esse trabalho implica essencialmente em perceber a demanda do
trabalhador e da organização, desenvolver meios de realização de práticas
embasadas em técnicas para que os conflitos sejam postos e problematizados. A
resolução parcial ou não é apenas um resultado do processo.
As dinâmicas
terapêuticas, terapias em grupo, atendimento individual, seja apenas por
psicólogos ou de maneira multidisciplinar são eficazes no meio organizacional.
Por meio de tais práticas pode-se de maneira formal ou informal desenvolver
canais de comunicação. Por mais subjetivo que isso pareça, propiciar a
comunicação é uma meio de evitar patologias no trabalho. Pois o mal
entendimento de situações, a dominação no trabalho, as relações de poder, são
comunicações feitas nas relações, são vias de deslocamentos dos afetos, logo,
são potenciais propiciadores de psicopatologias. O estresse no trabalho, as
broncas do chefe, as longas horas de trabalho, são reformulações morais e
legais de troca de trabalho por dinheiro. Como também são formas de sujeitar o
corpo a relações de trabalho muitas vezes excessivas e patologizadoras.
O
trabalhador, muitas vezes, diante de tanta subordinação ou de outras formas de
relação desproporcionais acaba por desenvolver patologias. Então o que fazer
para motivar o trabalhador na organização? A Motivação no trabalho é um
tema que talvez seja sempre atual, contudo em dinâmicas diferentes, já que
tempos diferentes geram diferenciadas demandas. Como motivar alguém no
trabalho, como gerir uma organização onde a comunicação perpassa variadas
formas de linguagem, incluindo as comunicações gestuais, por exemplo. Esse
questionamento é preciso quando se fala em organização e psicologia
organizacional. A motivação está diretamente ligada as vias do prazer e da
satisfação, como também do desejo. Motivar o trabalhador também é promover
vínculos entre o trabalho e implicação pessoal.
Hoje, falar em gestão de profissionais em ambiente
organizacional é falar em estudo especifico do ambiente interno e externo,
social e familiar que se relacionam direta ou indiretamente com a organização e
com a produção. Um modelo de organização
que tem como modelo conceitual a sustentabilidade está na moda, ou seja, está
de acordo com as novas demandas de mercado e estratégias de gestão no mundo
atual. O psicólogo organizacional deve estar antenado aos processos do mundo do trabalho, todo esse
grande esquema é dinâmico e exige atualizações constantes.
Reformular
processos, atualizar-se com as novas dimensões empresariais, estabelecer novos
planejamentos pode ser essencial a uma melhor dinâmica organizacional.
Comunicação, de fato, é uma das bases para que haja uma boa percepção e
intervenção no ambiente organizacional.
Muitos
estudiosos em psicologia tentam desenvolver novas técnicas para tentar promover
em praticas o bem estar social, pessoal e prioritariamente empresarial, muitas
vezes. Essas técnicas aliam o estudo das psicopatologias e a elaboração pratica
de acordo com a necessidade de cada organização, promovendo um clima mais
estável quanto possível entre os trabalhadores. Mas como lidar com o sofrimento
no trabalho? É necessário muitas vezes
recorrer a situações familiares, situações vinculadas aos afetos familiares.
Afetos como o
amor, o ódio, necessidades fisiológicas e sexuais, são base de relações
complexas, portanto, devem ser também objetos de estudo no processo de atenção
ao trabalhador. Como ele está no trabalho, como suas necessidades básicas são
atendidas, como são as relações de amor e ódio, mesmo não declaradas ocorrem?
Os conflitos gerados nas organizações devem ser estudados de maneira minuciosa,
já que o lidar com o humano pressupõe lidar com questões também afetivas. As
associações dos afetos parentais aos afetos no trabalho são da ordem também do
inconsciente, são relações
inconscientes, E isso faz da dinâmica das relações ainda mais detalhada quando
se deseja investigar as possíveis causas de possíveis conseqüências, que podem
ser sintomas físicos.
Os vínculos
humanos são aprendidos na infância por meio da família, sociedade básica
estruturadora do humano. É em casa que se aprende a ser homem, mulher, calmo,
agitado, verdadeiro, moral etc. Essas múltiplas dimensões são projetadas na
esfera do trabalho. Freud chama de transferência a relação intima entre o
sujeito e um outro relacional. Por meio da relação de transferência se pode
comunicar não somente com o chefe, mas também com um pai, não somente com a
mãe, mas com uma esposa, quem sabe... As relações de transferências podem gerar
condições diferenciadas de posicionamento ante o outro também nos rumos do
trabalho.
Emoções e afetos estão na base dos relacionamentos humanos. O humano
nasce em uma família e aprende por meio troca de afetos comunicar-se e
identificar-se no processo dialético de construção de si mesmo e de inserção no
meio social.
Os afetos estão intimamente ligados à sobrevivência do individuo
no meio social. Por meio do reconhecimento dos outros e por meio de relações de
identificação o humano aprende a lidar em meio ao social.
As relações
de afeto no trabalho.podem ser fruto de “romances familiares”. Não que haja
proporção ou repetições de eventos familiares, mas sim de afetos. Já que os
afetos são lapidados ao convívio social.
Repressões,
relações de dominação, amor e desinteresse, por exemplo, são da ordem das
dinâmicas familiares e que ocorrem um espaço organizacional. Na dimensão do
trabalho mudam-se os atores sociais, mas as relações de afeto permanecem e de
acordo com o encaminhamento dos afetos, pode ter relações estáveis e instáveis.
No ultimo caso é mais delicado, já que isso pode significar uma seria de patologias
geradas em ambiente de trabalho.
O psicólogo
que trabalha em uma organização deve está atendo ao seu poder de ação e
mobilização dentro de suas possibilidades. Então é necessário ter uma boa
formação acadêmica e pessoal acima de tudo, pois na formação pessoal pode-se
trabalhar suas próprias demandas, não somente das relações com outrem, mas no
auto conhecimento, na formação do processo identitário. A identidade de si por
si é formada por meio de auto implicação em processos pessoais que estão na dinâmica
social, do trabalho e pessoal, ou seja, subjetiva. Tento o cuidado de si o
psicólogo vai poder cuidar de outrem, ou melhor, dar possibilidade de outrem
ter cuidado de si também. É preciso também que não se confunda a finalidade de
exercício do saber fazer e do saber poder, para que o uso do conhecimento
filosófico, cientifico e técnico não seja apenas da reprodução e com finalidade
de manutenção apenas do que nos é imposto pelo modelo capitalista de produção.
Muitas vezes será necessário remar contra a maré, não em beneficio da
organização como prioridade básica, somente, mas como prioridade na saúde
mental, afetiva do ser humano. Para que o que é do código de ética e atentes
disso o que é constitucional seja de fato cumprido. Ou então a psicologia, como
muitas outras ciências de apropriações do conhecimento, vai servir como peça de
manutenção desse modelo patologizador em que vivemos. O psicólogo não deve
implicar suas técnicas de maneira paliativa ao sofrimento do trabalhador,
aliviando a dor e colocando o trabalhador, então, como peça de exploração. Nosso saber é investido também de
responsabilidade social e constitucional. Portanto devemos exercê-la. Essa foi
uma síntese breve do processo organizacional e trabalho, onde o psicólogo é
inserido e tem ação pratica, contudo dinâmica e muitas vezes revolucionária.
A prática nas
organizações e o seu caminho processual: uma experiência em sala de aula.
Durante o semestre de 2013. 1 Em
psicologia organizacional e do trabalho, trabalhamos alguns textos e nos
embasamos teoricamente, mas também tivemos algumas práticas em sala de aula que
colaboraram para além da percepção individual do que era o conteúdo.
Às práticas nesse sentido são
necessárias, pois aplicar o conteúdo teórico e elaborar um novo entendimento do
grupal e individual é necessário, de fato, para se interiorizar no corpo e no
intelecto, não de maneira dual, mas unitária o processo de vivencia e
entendimento de dinâmicas relacionais, e isso é caminhar no interespaço entre
teoria e prática, para além do que
apenas se diz, ler ou se ouve, por exemplo.
Nesse caminho, as práticas foram
essenciais em nossa classe. Principalmente porque algumas demandas da turma
eram de ordem relacional prática. Isso, portanto é revelador de que o
entendimento é além de teórico, prático. Aos poucos foram feitas algumas dinâmicas em
grupo durante as aulas e nossa sala de aula, que de certo modo é um lugar
relacional com dinâmicas próprias e múltiplos entendimentos, uma micro
organização. As dinâmicas aconteciam de acordo com algumas demandas que iam
surgindo durante as aulas e nos ajudaram a ter outra dimensão de nós mesmo como
instituição e como partes participantes dessa.
O corpo não é apenas um lugar de
assentamento do intelecto, e nesse sentido ele tem muito a falar, o corpo tem
muitas informações sobre os afetos, sobre formas de lidar de cada um frente a
momentos diversos da vida. Então é preciso que se tenha um olhar para além do
dualismo mente e corpo. Às práticas são, nesse sentido, positivas ao
entendimento mais apurado de determinados fatos. Como poderíamos ter melhor
percepção do mundo, do outro e de nós mesmo de maneira corporal relacional?
Colocando-se como agente e passivo na ação. Contudo de forma corporal. O corpo
é lugar da ação, no falar, no ouvir, no expressar, no receber, nos fluxos de informações
do ambiente relacional e natural.
Por meio de movimentos tranferenciais em
salda de aula, por exemplo, muito afetos foram postos à mesa. E então surgiram
os desentendimentos, desatenção em relação a demandas dos outros, não percepção
do outro de modo organizacional, indiferença ao outro, como também sentimentos
de raiva, compaixão, insegurança etc. Saber ler os processos tranferenciais no
corpo é, de fato, necessário ao entendimento mais sensível do outro e do
ambiente organizacional.
Nesse sentido, por meio de
dinâmicas de grupo ampliamos o nosso olhar para o é uma organização e como
podemos nos colocar. O olhar para si é algo importante e demanda o olhar do outro também. Não por ser o
outro o lugar do saber sobre si, não por certo, mas como um lugar diferenciado
de si onde se pode perceber formas de se relacionar em meio ao social. A
alteridade é realmente um lugar relacional, onde o fora de si é revelador de
si. Em dinâmicas feitas em grupo podemos nos questionar de diversas maneiras: Como
poderíamos nos comportar diante de tal situação, como nos portamos diante de
tais movimentos organizacionais, como nos vemos nas nossas relações, como nos
vêem os outros nessas relações, como nossos corpos ses anunciam ante os outros
e qual é o efeito gerado na instituição por meio dessas relações, que é um
lugar múltiplo? São algumas entre outras muitas questões que eram feitas nas
dinâmicas.
Além do olhar para o outro, existe o
olhar para a instituição. Esse olhar nos remete muitas vezes o lugar da lei, o
lugar que nos coloca como limitados, pois já existia um código institucional
anterior ao ingresso de cada um no grupo. O que não impossibilita a articulação
dos membros em renovar alguns lugares instituídos. O que é razoável e acordado
entre os participantes da organização que podem flexibilizar algumas regras
duras e legais. Não no sentido de se transgredir por transgredir as normas, mas
de fazê-lo se for razoável ao entendimento de certos fatos, ao processamento
dos mesmos e às demandas da organização. Então é preciso colocar na mesa o que
é a instituição e o que pretende também, já que é preciso saber o que se é e o
que se faz na instituição para se implicar nisso.
Tendo em vista os pontos, alteridade e
instituição, nas relações, então pode-se ter melhor entendimento de si no
processo. Em sala de aula, por exemplo, no semestre corrente de 2013.1, fizemos
algumas dinâmicas em
grupo. Dinâmicas utilizadas no teatro, psicodrama,
bioenergética, mesmo que de maneira introdutória, foram feitas em classe. E na atuação de
cada um diante do outro e das problemáticas postas pelo professor, como
instituição e por nós alunos, como partes da organização, foram indicadores de
problemáticas e pontos de partida para intervenções também. Esse processo nos
ajudou a ter melhor compreensão do ser pelo fazer. Por exemplo: Algumas vezes
andávamos pela sala de maneira aleatória, como se faz em exercícios de teatro,
e nesse exercício nos colocávamos de maneira projetiva, inconsciente,
associativa no caminhar pela sala, no caminhar acadêmico de construção com os
colegas. O caminhar é de certa forma uma metáfora do trilhar seu caminho, do
aprender com o viver, do construir e ser construído. Um movimento dialético,
vamos dizer assim. Nosso caminhar era variável, por hora lento, por hora
rápido, por hora intencional, por hora sem propósito, além, é claro, dos
movimentos de subjetividade de cada um, que poderiam destoar do grupo. Não por
ser um erro, mas sim por ser demanda de uma subjetividade. Colocar-se no caminhar
com outros e de maneira subjetiva, projetiva, inconsciente e consciente também,
nos permitiu elaborar e reelaborar novas formas de relação, de ação e reação .
Ao não chocar-se com outros, por exemplo, durante o andar, podemos elaborar em
nosso corpo e intelecto novas formas relacionais frente ao outro. O outro seria
um obstáculo, um semelhante, um superior, um inferior, um indiferente, um
parceiro...? Quem é esse outro e poderíamos nos portar ante ele? Cada um teria sua percepção, contudo, respeitando
o lugar relacional, que de certa forma é institucional. Por meio dessa dinâmica
podemos nos colocar melhor na organização, respeitando o lugar dos outros.
Nas dinâmicas de fala e escuta nos
colocamos entre os colegas falando das variadas percepções da disciplina, da
instituição, da organização provisória que fizemos para além da já instituída
na universidade, ou seja, nos colocamos como sala de aula, o nosso local de
encontro e organização também. Como estávamos lidando com as diversas formas de
relacionamento, que tipo de relações transferenciais estariam ocorrendo, quem é
de fato esse outro, o colega ou o professor e como estou me colocando, eu,
nessas relações? Tivemos a oportunidade
de nos questionar, de perceber algumas demandas. É, claro, que de maneira ainda
superficial e introdutória, pois muito ainda não foi dito ou desvendado.
Contudo demos alguns passos.
Os conflitos aos poucos iam surgindo em
meio ao nosso processo. No inicio, ainda tímidos nos comportávamos para melhor
executar o que era proposto. Mas como o caminhar dos textos, discussões e
percepções de demandas em classe, exercícios de concentração e percepção, nos
enxergamos melhor. Afinal, conseguiríamos ser estritamente legais ou éticos?
Penso que o mal estar, descrito por Freud, que nos rodeia é fruto nítido do não
cumprimento de normas por si. Então aparecem os tais conflitos. E em cima dos
mesmos nos trabalhamos, demos um passo ao entendimento. O entendimento dos
acontecimentos e fatos é curativo, ou ao menos ocasionador de vontade ou não de
implicação em determinado conflito. Em sala de aula, tivemos colocações,
desentendimentos, falas, colocações, ou seja, trocamos algumas informações
sobre o que se passava e o que poderia ser feito em grupo e de maneira
individual para que o relacionamento organizacional fosse razoável, ou
aceitável ou não também.
Um novo olhar sobre o outro e sobre nós
mesmo é essencial para compreensão da relação. Em práticas de terapia em grupo
são trabalhadas muitas dimensões subjetivas e grupais de interpretação do que é
um ambiente organizacional. Fizemos um pouco disso. A medida que nos
trabalhamos e nos percebemos, podemos construir e ser construídos em vista de
melhor interpretar os fatos e lidar com eles de novas maneiras. Em dinâmicas
onde aparentemente éramos ficcionais e estávamos em exercícios de algo proposto
pelo professor, estávamos elaborando simbolicamente novas maneiras de
relacionamento e de interpretação e entendimento do que se passava ali na sala,
nossa organização. E quiçá também para outras áreas da vida, por certo. O
simbólico é um entre-lugar propiciador de novas maneiras de assimilar
contextos, conceitos e construtos. As práticas então não são pontos de chegada,
não somente são efeitos, como também causas. Eis então os novos campos de
possibilidades às novas construções reais e simbólicas da prática.
As aulas foram importantes por nos mostrar
não somente na teoria como também nas práticas o que é uma organização e como
podemos lidar com outros nesses lugares. Somos muitos com diversas
subjetividades, contudo com ideais, normas, caminhos e possibilidades muitas
vezes comuns. O entendimento, mesmo que parcial, desses múltiplos processos
intelectuais e corporais nas relações organizacionais e do cotidiano foi e é importante
para implicações práticas razoáveis ao bom funcionamento das organizações.
Afinal, somos relacionais e, portanto, limitados nos lugares organizacionais.
Contudo é importante também, para além de obedecer cegamente o que é proposto
perceber-se e implicar-se consigo mesmo em demandas de vida. Que muitas vezes são ou
deveriam ser mais importantes até do que as demandas organizacionais, que por
vezes é muito mais reducionista e imperativa ao lucro. Portanto é necessário
não esquecer que a vida e o bem estar individual é primordial ao empresarial,
sendo mais específico. Logo, acredito que para além de terapias grupais são
necessárias escutas individuais por psicólogos como também escutas de si por si
mesmo. Isso lembra-me uma frase clássica: “Quem és tu?”. O autoconhecimento,
portanto, é uma demanda imediatamente primordial e mesmo que pareça
anticapitalista é primordial à vida deve ser prioritária até à emergência ao
lucro.
A matéria psicologia organizacional e do
trabalho foi importante para a classe pois nos possibilitou uma melhor visão do que seriam as práticas
nas organizações, partindo do ponto de que somos, de fato, uma organização
micro, um lugar de experimentação do macro, sociedade e novas organizações.
Podemos nos implicar nos nossos caminhos processuais, Tivemos experiências bem
sucedidas em sala de aula. Muitas coisas ficaram no ar, por processar e se
entender posteriormente, mas isso é processual e subjetivo. É de cada um.